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quarta-feira, 8 de junho de 2011

Imagem Spartacus sem o fundo

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Spartacus (Stanley Kubrick, 1960)

Spartacus foi a primeira grande produção de Stanley Kubrick, trabalhando como diretor contratado de estúdio, um emprego conseguido por Kirk Douglas, com quem havia feito o anterior Glória Feita de Sangue. A experiência, porém, não foi bem vista por Kubrick, que depois de concluída a pós-produção do filme decidiu nunca mais trabalhar para um estúdio novamente. Quem fala sobre um dos grandes épicos do cinema é Robson Galluci, no quinto filme deste especial.

Spartacus (Spartacus, 1960)
Spartacus foi o filme mais importante para a carreira de Stanley Kubrick.
Antes que o leitor fique indignado ao ver obras como 2001 ou Laranja Mecânica preteridas em relação a esse épico, devo lembrar que há uma considerável diferença entre “filme mais importante da carreira” e “filme mais importante para a carreira”. Spartacus foi uma experiência bastante traumática para Kubrick: contratado por Kirk Douglas, produtor executivo e ator principal do projeto, para substituir Anthony Mann, o diretor sentiu-se amarrado durante toda a produção — suas idéias raramente batiam com as de Douglas, que tinha a palavra final. Foi por causa de Spartacus, portanto, que Kubrick decidiu que nunca mais trabalharia como diretor contratado — garantiu que, dali em diante, só entraria em projetos nos quais tivesse liberdade criativa absoluta. E é por esse motivo que considero o filme como o mais importante para a carreira do diretor; foi o estopim que permitiu a realização das posteriores obras-primas do cineasta.
É um exercício interessante comparar Spartacus com os primeiros filmes de Kubrick, A Morte Passou por Perto e O Grande Golpe (Fear and Desire não conta, já que era renegado pelo próprio diretor e foi tirado de circulação): se nestes podemos perceber os primeiros traços de um jovem que um dia se revelaria um gênio, em Spartacus podemos ver o mesmo realizador de antes, já em condições de fazer um filme brilhante (afinal, a obra anterior do cineasta fora o inesquecível Glória Feita de Sangue), mas não fazendo, por algum motivo. É a diferença entre “esse sujeito ainda vai filmar uma obra-prima” e “ele poderia ter feito melhor dessa vez”.
Isso não significa que Spartacus seja ruim ou medíocre, pelo contrário. Embora não esteja à altura das obras subseqüentes (com exceção de Lolita), o filme é um ótimo épico, mesmo tendo vindo depois de Ben-Hur. E, apesar de tudo, não há como negar que foi dirigido por Stanley Kubrick: sua assinatura inconfundível está lá, mesmo que um pouco apagada. Na beleza estética, podemos reconhecer o Kubrick que mais tarde nos presentearia com Barry Lyndon; no fundo político da trama, o Kubrick que mais tarde faria Dr. Fantástico e Laranja Mecânica; na escala grandiosa do filme, o Kubrick que mais tarde mostraria ao mundo seu épico peculiar, 2001: Uma Odisséia no Espaço.
Sem mais delongas, um resumo do enredo: Spartacus é um escravo trácio comprado por Lenulus Batiatus (Peter Ustinov, irrepreensível), que possui uma escola onde treina gladiadores. Durante uma visita do general Marcus Licinius Crassus (Laurence Olivier), Batiatus é persuadido a realizar dois combates que deverão se estender até que um dos oponentes morra. A situação é especialmente traumática para os escravos, que se vêem obrigados a lutar até a morte contra um amigo. A conseqüência é o início de uma rebelião na escola de gladiadores — rebelião que ganha aos poucos proporções épicas e se transforma no maior levante de escravos da história de Roma. Do outro lado, no Senado romano, estão o próprio Crassus, que vê na revolta uma oportunidade para adquirir poder, e Gracchus (Charles Laughton), que procura a solução que cause menos transtornos.
Um fator que diferencia Spartacus de outros épicos, e onde já se manifesta a marca de Kubrick, é que o maniqueísmo aqui é bem mais moderado. Todos os escravos são retratados como pessoas boas, simples, fazendo brincadeiras entre si, sem defeito algum, praticamente, mas o mesmo não ocorre no núcleo romano da história (que, por sinal, é o mais envolvente). Tomemos Gracchus como exemplo: simplificando as coisas, ele seria um dos mocinhos do filme, mas não é mostrado em momento algum como alguém perfeito ou completamente virtuoso — há inclusive um momento em que ele diz “Política é uma profissão prática. Se o criminoso tem o que você quer, negocie com ele.”, o que, infelizmente, não deixa de ser verdade.
Esse fundo político da trama, aliás, é um dos melhores aspectos de Spartacus, e mais um que traz a marca de seu diretor. (O filme foi acusado de ser comunista na época de seu lançamento, e ainda trazia Dalton Trumbo, que estava na lista negra de Hollywood, nos créditos.) É extremamente interessante acompanhar as jogadas (não há outra maneira de defini-las) dos senadores romanos, que não pensam duas vezes antes de manipular alguém ou se utilizar de uma oratória invejável com o objetivo de enfraquecer uma visão contrária à sua. Usando mais uma vez Gracchus como exemplo: a certa altura do filme, ele indica Marcus Glabrus (John Dall), comandante da Guarda Romana e pupilo de Crassus, para ir ao encontro do exército de Spartacus e vencê-lo. O ponto é que há uma grande chance de Glabrus perder o combate e voltar humilhado — e, assim, quem o substituiria seria o comandante provisório (que, por sua vez, é pupilo de Gracchus). Outros momentos ótimos são as estratégias e contra-estratégias de Gracchus e Crassus, das quais não vou falar aqui por ocorrerem já com o filme bastante avançado.
E chegamos a Crassus, que pode ser definido como o vilão da história… mas as coisas não são tão simples quanto parecem. Como dito acima, Spartacus é um filme que foge do maniqueísmo em certo aspecto — e isso é notável quando se trata do personagem do general. Embora o roteiro dê a oportunidade de retratá-lo como um homem maléfico e terrível, Crassus se mostra como alguém que simplesmente decidiu se adaptar ao seu meio — Roma, no caso. A cena em que ele diz ao seu criado que Roma domina o mundo inteiro, e que a única escolha inteligente é admirá-la e servi-la, revela bastante de sua personalidade. Crassus considera Roma um império indestrutível, e vislumbra a chance de chegar ao poder. Méritos para Kubrick e, principalmente, para Laurence Olivier, brilhante — houve momentos em que eu cheguei a torcer pelo general.
A direção de Kubrick também é ótima, embora não tão estupenda quanto a dos filmes que viriam a seguir, ou a de Glória Feita de Sangue. As seqüências de ação são incríveis, especialmente a batalha final entre os exércitos de Spartacus e Crassus: antes de ela começar efetivamente, Kubrick gasta vários minutos acompanhando a movimentação das tropas (em tomadas que certamente Peter Jackson viu), estabelecendo um clima de tensão admirável. Lançar um épico com cenas de ação marcantes apenas um ano depois de Ben-Hur e sua espetacular corrida de bigas é coisa para poucos. E, antes que me esqueça, preciso citar aquela que considero a melhor cena do filme: aquela em que Antoninus recita um poema cujo tema é o retorno para casa. É lírica, esplêndida… seria Kubrick ensaiando para 2001?
Não há muito mais o que falar sobre Spartacus. Elogiar a fotografia, de Russell Metty, ou a bela seqüência de abertura, do genial Saul Bass, e demais aspectos técnicos seria chover no molhado, repetir o óbvio. Ao contrário das obras posteriores de Kubrick, esse épico (ou melhor, Kirk Douglas) nunca teve a intenção de dar margem a discussões complexas sobre o homem, a guerra ou a sociedade. Inclusive, quando decidi escrever sobre Spartacus, o fiz por imaginar que seria mais fácil (fui preguiçoso, admito). Quase me arrependi da escolha, depois de rever o filme duas vezes em dois dias e contemplar o cursor piscando numa página em branco durante várias horas. Acabei chegando a uma conclusão: é difícil escrever sobre qualquer filme do diretor. Mas isso não deveria ser uma surpresa para mim; afinal, estamos falando de Stanley Kubrick.

Escravos em Roma

Tal como aconteceu na Grécia, também a economia em Roma se baseou no trabalho de escravos, uma vez que os cidadãos tinham de se dedicar totalmente aos afazeres políticos e sociais.
Nos primórdios da República (séculos V a. C.) eram ainda poucos os escravos, tendo o seu número aumentado a partir dos séculos III e II a. C. com as capturas efetuadas por meio de pirataria marítima e pelas conquistas territoriais do Império Romano. Era sobretudo em Delos e em Cápua que se comerciavam estes escravos, provindos inicialmente da Ásia e da África sob domínio de Roma, e o negócio era de tal forma lucrativo que as vendas ascendiam por vezes a algumas dezenas de milhar diárias.
Os donos possuíam sobre estes servos todos os direitos, inclusivamente os de vida e morte. Não lhes era permitido ter nome, participar na vida política, possuir coisas de sua propriedade ou casar-se. Eventualmente, se o senhor fosse bondoso ou se agradasse de algum dos seus escravos poderia dar-lhe alforria.
As condicionantes que levavam à escravatura eram algo semelhantes às da Grécia, contando-se a exposição de crianças (que pertenceriam a quem as recolhesse), a venda do filho pelo pai, a venda da própria pessoa, a venda para pagar dívidas, o aprisionamento durante a guerra, a venda de peregrinos capturados, a venda de vassalos por alguns dos reis do Oriente e ser filho de uma escrava.
No seio deste grupo social havia também diversas classes, nas quais se enquadravam os escravos que possuíssem mais ou menos conhecimentos e de acordo com o teor destes mesmos conhecimentos. Os senhores cultos e abastados tinham a possibilidade de adquirir escravos gregos, detentores de grande prestígio intelectual, para ensinar os filhos, sendo estes cativos muito bem tratados. Tal não acontecia com os escravos que não possuíam qualquer saber especializado (de medicina e escrita, por exemplo), trabalhando neste caso nas galeras, nos campos, minas e fazendo os mais rudes trabalhos domésticos.
Os escravos trabalhavam também nos organismos públicos e coletivos, estando associados em corporação chamadas servi publici.
O tratamento dado à maioria destes servos era tão desumano que frequentemente havia deserções e rebeliões, entre as quais se enquadra a do grego Spartacus (73 a. C.). Estas rebeliões eram duramente refreadas e punidas, uma vez que todo o sistema económico do mundo romano em Itália e bastantes outros territórios colonizados e aculturados dependia deste género de mão de obra.

Escravos na Grécia Antiga

Na Grécia do período Clássico, os escravos, cuja condição variava segundo a região e sistema político-social dominante (como Atenas e Esparta, por exemplo), tinham sobretudo a obrigação de cumprir tarefas relacionadas com a casa do senhor, desempenhando além disso funções económicas.
Este sistema revelou-se extremamente proveitoso, uma vez que, livres dos encargos quotidianos, os cidadãos podiam ocupar-se do cultivo das artes sociais, políticas e intelectuais.
Contudo, e apesar de terem sido contemplados pelas leis, os escravos eram considerados apenas habitantes da cidade e não cidadãos, não sendo portanto abrangidos pelos direitos e regalias destes últimos.
Os escravos costumavam ser inicialmente capturados nas cercanias dos grandes centros (pólis), a algumas dezenas de quilómetros, uma vez que a Hélade (Grécia) não era uma agregação territorial, mas antes um conjunto de pólis autónomas. Mais tarde eram fornecidos por entrepostos comerciais, capturados na Frigia, na Caria e na Trácia e crê-se que a partir do século V a. C. eram comprados aos bárbaros, tendo também havido gregos que se tornaram escravos por não conseguirem pagar dividas contraídas. Outras formas de obter servos eram a venda dos filhos, a venda da própria pessoa para poder sobreviver (método a que recorriam os mais indigentes) e mesmo trocar os serviços de médico pela escravatura do paciente.
Devemos frisar que o conceito de escravatura era nesta altura e neste contexto geográfico muito particular, sendo os escravos tratados com humanidade, chamados a combater ao lado dos seus senhores (apesar de em raras ocasiões de perigo extremo e em troca de direitos e regalias) e participando com eles nos trabalhos da sua profissão.
Filósofos como Aristóteles consideravam que a condição de escravo era inerente a certos indivíduos, chegando a declarar que todos os bárbaros tinham as características destes mesmos indivíduos, que os impedia de elaborar juízos morais e os tornava, consequentemente, destinados a obedecer. Aristóteles defendia igualmente a guerra como uma forma legítima de conseguir escravos, algo que era bastante comum, como denotam os poemas homéricos. Estas justificações não impediam, no entanto, que fosse admitida a necessidade como razão fundamental para a prática da escravatura.
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